| ONGs: Uma Bênção ou Uma Praga |
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| Escrito por Luiz Weis | |
| Monday, 25 October 2004 | |
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É a sociedade em ação, "uma bênção" . É o potencial para picaretagens, "uma praga". Dias atrás, algumas dezenas de ongueiros "ilustres"
se reuniram numa faculdade no centro de São Paulo para discutir
o que fazer diante de um movimento que ganha corpo no Congresso e
no Planalto para submeter a algum tipo de controle as cerca de 250
mil aqui organizações não-governamentais (ONGs) que se
estima existirem no Brasil. Essa imensa diversidade pode ser vista como "uma bênção"
ou "uma praga". É a sociedade em ação,
no primeiro caso; é o potencial para picaretagens, no segundo. Ou se perguntam se essas parcerias não representam uma
terceirização inaceitável das funções do Estado, uma armação
neoliberal, portanto. O pessoal sabe que nem toda ONG é um clube de querubins, mas
sustenta que o chamado terceiro setor tem menos podres do que os
outros dois, o Estado e o Mercado. Não espanta que, nesse território aberto ao capitalismo
selvagem, o dinheiro e o poder acusem a primeira ONG que se
interpuser no seu caminho de ser a vanguarda das multinacionais e
dos governos estrangeiros querendo se apossar dos nossos
tesouros. E os acusadores têm linha direta com o Congresso
Nacional. A esse quinteto de proposições deverá sobrepor-se a que o
governo prepara. O autor do substitutivo que passou batido pelo
Senado foi o baiano César Borges, do PFL. O autor do projeto,
Mozarildo Cavalcanti, do PPS de Roraima. Além de cercear a liberdade de associação no País, garantida na Constituição, o texto confunde Estado e sociedade, inventa um mastodonte burocrático e lhe confere poderes arbitrários. "É um instrumento de enfraquecimento da sociedade
civil", resume o engenheiro Augusto de Franco, da ONG
Comunitas, que dissecou o projeto. Portanto, organizações formadas para promover interesses
coletivos, mas não necessariamente públicos - desde uma
sociedade de estudos especializados à torcida de um time de
futebol, por exemplo -, não poderiam ser reconhecidas, embora
sejam tão legítimas como quaisquer outras. "As ONGs (tampouco definidas) prestarão contas anualmente dos recursos recebidos por intermédio de convênios ou subvenções de origem pública ou privada, inclusive doações, ao Ministério Público, independentemente da prestação de contas aos respectivos doadores."
O pior é a essência do projeto - a criação de um cadastro nacional de ONGs, no Ministério da Justiça. Para se inscrever nele, a ONG "prestará
esclarecimentos sobre suas fontes de recursos, linhas de ação,
tipos de atividades, de qualquer natureza, que pretenda realizar
no Brasil, o modo de utilização de seus recursos, a política
de contratação de pessoal, os nomes e qualificação de seus
dirigentes e representantes e quaisquer outras informações que
sejam consideradas relevantes para a avaliação de seus
objetivos". Vixe! É a negação chapada do direito constitucional dos cidadãos de se organizar para fins lícitos, sem precisar de licença do governo. E não se imagine que já não existam procedimentos instituídos
para a criação de ONGs, como os registros em cartório, na
Receita e nas prefeituras (além de autorização do Ministério
Público, se for uma fundação). Ela fornecerá ao burocrata do dia todas aquelas informações,
mais as enigmáticas "outras" que o distinto
servidor houver por bem requisitar. Multiplique-se isso por 250
mil. Ele se pergunta qual poderá ser essa finalidade no caso das ONGs. Se a intenção é defender o patrimônio público, o foco do controle e da fiscalização deve incidir sobre a atuação do Estado. Controles sobre o que as ONGs fazem com o dinheiro que dele recebem já existem. Se não prestam por serem meramente burocráticos, como diz a antropóloga Ruth Cardoso, trata-se de torná-los eficientes. E deixem-se as ONGs em paz (?!!)
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