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A crise que vivemos é claramente o
resultado da perda do sentido do Sagrado por nossa cultura, que
tem como fundamento básico o esquecimento do esquecimento do Ser.
Esquecendo o Ser esquece-se a voz indígena, pois é ela a
primeira na Humanidade que fala da harmonização com ele: "a
Origem das Origens".
Vivemos um momento decisivo para a questão indígena
em todo o mundo.
Com o aprofundamento brutal da crise gerada pelo materialismo,
e a consequente re-valorização dos sistemas de entendimento e
de ação concreta fundados no amor, no diálogo e na
cooperação, a situação sócio-histórica indígena e a
contribuição de sua cultura para a Humanidade passam a ocupar
um lugar determinante.
Determinante porque escutar a voz indígena - que clama em todo o
mundo por respeito, de maneira dramática - é escutar a voz
indígena que está dentro de cada um de nós mesmos.
Esta voz que nos fala do fundo de nossa consciência. Do fundo
de nossa mente e de nosso coração, a respeito de nossa origem.
Que nos identifica como uma só família - irmãos e irmãs.
Partes da Totalidade.
Hoje esta consciência está quase esquecida, pois é uma outra
lógica de irmandade, a Big Brother, que
articula os interesses, as pessoas, as nações e a
globalização neoliberal.
Todos (des)afinados na unidimensionalidade do desespero e da
ignorância do individualismo competitivo e destrutivo. Motivados
pela vã esperança e pela ardilosa ilusão do poder.
É muito importante perceber que a consciência de sermos uma só
família, unos na totalidade das múltiplas manifestações, não
é um pensamento. Não é uma idéia. Não é uma produção do
raciocínio, no sentido de um monarca que governa sozinho, como a
razão patriarcal e cartesiana faz na maneira ocidental de viver.
Mas a consciência é o resultado da vivência profunda, em
todas as dimensões, da experiência de se estar vivo. No mínimo
o resultado da experiência real de se ter corpo, emoção, mente
e espírito. É somente esta vivência multidimensional que nos
permite descobrir a unidade da diversidade.
Descobrir e agir com a consciência de que fazemos parte do
Todo. Como nos ensina a voz indígena, o Planeta não nos
pertence. Fazemos parte dele. E isto muda tudo.
A conexão com a origem permite superar os conflitos, sejam eles
na psique; no inter-relacionamento pessoal; na economia; na
política; na sexualidade; no diálogo inter e intra-religioso.
Seja em Chiapas, no México, seja na dimensão escalatória do
aterrador conflito do Oriente Médio, só há uma saída:
"Lembrarmo-nos, na ação, de nossa origem comum, que
nos define como parte do todo, ela que é capaz de qualificar
eticamente cada uma de nossas decisões de maneira a que elas
produzam a coesão que falta nos dias de hoje, quando a voz
indígena procura se fazer ouvir".
Escutemos esta voz, pois ela é a nossa própria voz.
Dentro de cada um de nós, gravado em cada uma de nossas
células e na raiz de todas as nossas civilizações, fala a
consciência indígena a respeito de sermos filhos de uma mesma
Mãe.
Pois, em verdade, quando, em ato de fé e de pura lógica,
mergulhamos no encontro do que leva os vários nomes de Deus, do
Silêncio, da Mutação e da Energia Universal, re-encontramos
necessariamente nossos irmãos e irmãs indígenas em sua
consciência de que a Natureza é viva [2]. De que nossa Mãe
primeira é a Terra.
De que o princípio feminino tem importância decisiva, e é a
partir dele que foram construídas as concepções cósmicas que
estão no âmago original de todas as tradições espirituais
antigas da Humanidade.
Este âmago é a Mãe Universal, da qual toda mulher é uma
manifestação terrena, uma manifestação do aspecto gerador e
sedutor do sagrado mistério que sustenta e, continuamente, cria
o mundo. Big-Bang que seja.
Desde as mais elaboradas cosmovisões até as mais modestas
práticas telúricas, já no neolítico e mesmo no paleolítico
[3], encontramos sempre a mesma intuição central em relação
à Mãe, que se repete como tema condutor: Ela é a matriz. Ela
é. A Senhora do Lugar.
Fonte de todas as formas vivas, de guardiã das crianças e
matriz para a qual vão os mortos para que nela repousem, se
regenerem e renasçam, de alguma forma, graças ao seu caráter
santo [4].
Devo pegar uma faca e rasgar o seio de minha
mãe?, disse no final do século XIX um chefe da tribo
Wanapum, em território hoje norte-americano, diante da pressão
de uma cultura masculinamente dominante para que cultivasse e
buscasse minerais no corpo de sua Mãe.
- Então, prosseguiu ele, "-
quando eu morrer, ela não me tomará em seu seio para que eu
repouse. Você me pede para escavar o chão procurando pedra!
Posso escavar sob a sua pele à procura de seus ossos? Então,
quando eu morrer, não poderei entrar em seu corpo para renascer.
Você me pede para cortar grama e fazer feno e vendê-lo, e ficar
rico como os homens brancos! Mas como eu ousaria cortar os
cabelos de minha mãe?.
É por isto que constatamos em todo o mundo um grande crescimento
da organização das culturas indígenas.
A crise que vivemos é claramente o resultado da perda do
sentido do Sagrado por nossa cultura, que tem como fundamento
básico o esquecimento do esquecimento do Ser [5]. Esquecendo o
Ser esquece-se a voz indígena, pois é ela a primeira na
Humanidade que fala da harmonização com ele: "a Origem
das Origens".
Não é à toa que nossa civilização percebe, a Natureza
como morta, como uma mera fonte de recursos econômicos, bem como
a seus filhos igualmente mortos, não mais sujeitos mas objetos,
como tudo o mais, mal respirando, apenas consumidores e não mais
vivos, na qualidade de pessoas.
Este quadro é que faz com que haja uma reação a esta
obscuridade tremenda, e todos os sistemas de entendimento que
percebem a natureza como viva passam hoje, necessariamente e cada
vez mais, por um grande ressurgimento.
Este é o caso destacado das tradições indígenas, pois elas
são a memória viva do tempo em que o ser caminhava
com a floresta, os rios, as estrelas e as montanhas no coração
e exercia o fluir de si, como diz Kaká Werá Jecupé,
o tapuia nascido em São Paulo e que criou o Instituto Arapoty.
São Trezentos Milhões Falando
O momento é tão especial para a voz indígena, sob as mais
variadas maneiras, que até mesmo os setores dominantes da
sociedade a procuram ouvir. Ou pelo menos deixar que a ouçam um
pouco. Este é o caso da canonização de Juan Diego.
Pela primeira vez na história das Américas um indígena vai
ser canonizado. O beato Juan Diego, um índio mexicano de origem
chichimeca, cujo nome indígena original era Cuauhtloatzin, a
quem o Vaticano reconhece que Nossa Senhora de Guadalupe apareceu
várias vezes, vai ter a sua santidade reconhecida em cerimônia
celebrada pelo próprio Papa no México, apesar da debilidade de
sua saúde, no próximo dia 30 de Julho, portanto 18 dias da
Assembléia Global da URI.
Isto certamente é mais uma sincronicidade na direção do
respeito à voz indígena, mesmo que lida dentro da tradição
cristã. Ainda mais quando se sabe que a Virgem de Guadalupe é
exatamente a Santa Padroeira das Américas, continente no qual
foram executados milhões e milhões de indígenas.
É este mesmo México que apresenta ao mundo a luta
extraordinária da Frente Zapatista de Libertação [6], que quer
que o governo reconheça os direitos dos povos indígenas daquele
país.
Vale lembrar que somente em se tratando dos astecas, que à
época da chegada de Hernán Cortez eram uma civilização
altamente sofisticada com 25 milhões de pessoas, o massacre
resultou em 24 milhões de pessoas assassinadas em menos de um
século.
Temos que ter realmente um cuidado muito especial com a questão
indígena, pois estamos falando de povos cuja presença em suas
terras, na maioria das quais foram expulsos, se remonta a tempos
imemoriais.
Presentes desde o Círculo Ártico às Américas, África e
Ásia, calcula-se que hoje são cerca de 300 milhões de pessoas
que vivem em mais de 70 países.
Quase sempre estes povos se encontram entre as populações mais
vulneráveis e marginalizadas destes países. Isto se dá
exatamente em função de que a civilização dominante se
construiu matando dentro de si mesma a voz que fala da origem
comum de todos e de tudo, com suas leis de amor, de diálogo e de
cooperação. De respeito à Totalidade.
É por isto que a exclusão econômica e social relegou os
indígenas ao nível mais baixo de todos em termos sanitários,
profissionais e sociais e os expôs e expõe a um enorme
sofrimento.
Se construímos uma civilização que tem como fundamento
principal abolir o sentido de cooperação, que é a dinâmica
própria da manutenção do sentido da totalidade, da harmonia
cooperativa, é claro que são os indígenas que pagam o preço
maior: a loucura, o suícidio, a prostituição, o alcoolismo, as
doenças, a desagregação pessoal e social.
Sabemos que o tapar ouvidos à voz indígena destrói inclusive a
maioria daqueles que ocupam as posições econômicas, políticas
e sociais privilegiadas, pois eles são em verdade excluídos de
si mesmos, de suas próprias essências, como nos mostram a
corrupção, as drogas caríssimas, o crime organizado, o
comportamento doentio que enche os consultórios terapêuticos, o
dia-a-dia e os noticiários de todo o mundo.
Em verdade se aqueles que estão no poder mundano fossem
conectados com o Sagrado, este que nos fala da origem comum e de
suas leis, que nos fala da dimensão espiritual [7], eles seriam
pessoas benéficas, que saberiam se conduzir e assim conduzir
seus povos, tais como soberanos justos e bondosos.
Uma das maneiras mais eficazes de avaliar a justiça e a
bondade de um reino, pós-moderno que seja, é fazer o que a
sabedoria antiga chinesa nos recomenda no I Ching: percorrer
todas as partes do reino para ver como as coisas realmente
estão. E percorrer os reinos atuais, aliás o reino globalizado
atual, é constatar a existência de algo profundamente
equivocado.
O que se chama de desenvolvimento, movido pela opção
unidimensional do poder humano ignorante da existência da
Totalidade, envolve e atinge a todos sem levar em conta a
especificidade de suas múltiplas histórias, de suas culturas,
de suas línguas, de suas tradições, de suas necessidades e
prioridades. Corta, sumariamente, todos os seus projetos de vida,
vínculos econômicos, culturais e espirituais que são a
essência da identidade do humano. Reduz-se tudo e todos ao jugo
do lucro e da obtenção de poder. Com isto faz-se qualquer coisa
que o ego queira, como se não existisse uma ordem provinda de
uma dimensão não-humana, pré-cultural, que a tudo criou,
sustenta e transforma.
Lamentavelmente esta maneira ignorante de organizar a vida humana
vem destruindo as pessoas e os povos em todos os continentes,
sejam eles habitados por brancos louros de olhos azuis, quanto
negros de pele brilhante, quanto amarelos, mulatos, caboclos e de
qualquer outra matiz de pele ou interna. Quanto mais próxima a
cultura está consciente da origem comum mais este sistema lhe
reserva um lugar de sofrimento. É fácil entender agora porque
os indígenas estão na mais baixa escala social. Eles pagam o
preço de serem a memória viva da Natureza enquanto viva.
Uma Voz que Cresce
A gravidade é tão extrema que o sistema da ONU, sobretudo nas
duas últimas décadas, tem procurado sintonizar-se diretamente
[8] com este interesse cada vez maior pela voz indígena. Neste
sentido é que tem havido uma presença crescente de
representantes indígenas em fóruns internacionais, como no
Grupo de Trabalho das Nacões Unidas sobre as Populações
Indígenas, orgão da Subcomissão sobre a Promoção e a
Proteção dos Direitos Humanos, e naturalmente no Grupo de
Trabalho sobre a Declaracão dos Direitos dos Povos Indígenas.
Um dos avanços mais significativos dos últimos tempos em termos
internacionais foi a decisão tomada em julho de 2000 em
relação à constituição de um Fórum Permanente das Nações
Unidas para os Povos Indígenas, como orgão do Conselho
Econômico e Social das Nações Unidas, e que vem a ser o mais
alto fórum já criado na ONU para cuidar deste assunto.
Os indígenas vêm lutando muito pela inclusão da denominação
Povos Indígenas nos documentos oficiais, pela ratificação
fundamental do Convênio 169 da Organização Internacional do
Trabalho [OIT], que reconhece seus direitos no campo do Trabalho,
pela abertura de espaços de participação em todos os níveis
de decisão que lhes atingem, de cotas e inclusão da questão
indígena nos Conselhos, nos Ministérios, nos organismos
internacionais, pela demarcação e homologação das terras
indígenas.
Enfim, um sem número de lutas, pois praticamente tudo lhes
foi negado uma vez que o paradigma Ocidental, como vimos,
construiu-se na exata medida da proporção com a qual matou em
si mesma a consciência de fazer parte de um todo.
Na dimensão brasileira, a Conferência Nacional dos Bispos do
Brasil [CNBB] consagrou a Campanha da Fraternidade deste ano
exatamente aos povos indígenas, com o tema "Por uma
terra sem males".
Mesmo que sejam procedentes críticas a esta Campanha, por seu
acento explícito na Catequese, como se pode ver em vídeo
preparado pela Arquidiocese do Rio de Janeiro, e veiculado na
Rede Globo, quando todos os índios que aparecem são convertidos
e aparecem todo o tempo em uma missa, sabemos que setores
significativos da Igreja Católica são progressistas e
efetivamente estão dedicados a que se escute a voz indígena.
Inclusive a CNBB afirma que pretende investir junto aos partidos
políticos para que seja aprovado, ainda este ano, o substitutivo
do Estatuto do Índio, que está engavetado no Senado Federal
apesar de contar com o apoio das principais lideranças e
organizações indígenas de nosso País.
Sincronicamente a esta situação, por incrível que pareça, a
população indígena no Brasil vem crescendo muito nas últimas
duas décadas. Se nos anos 80 tínhamos cerca de 260 mil índios,
na virada do milênio eles já eram aproximadamente 350 mil, e
hoje a Fundação Nacional do Índio os estima em 540 mil,
distribuídos em 206 nações indígenas localizadas em todos os
estados da Federação, à exceção apenas do Piauí.
"O que chama muita atenção neste quadro demográfico
é que para cada cidadão urbano brasileiro que nasce hoje estão
nascendo três índios".
Isto é impressionante, pois traz, na medida em que assumamos
a nossa parcela de responsabilidade no processo, uma enorme
contribuição para que o Brasil e a Humanidade re-conecte com a
Natureza enquanto viva, pois como diz Ailton Krenak, coordenador
do Centro de Pesquisas Indígenas, do povo Krenak de Minas
Gerais,
muitas comunidades indígenas, mesmo tendo sofrido
enormes mudanças no aspecto mais aparente de sua cultura,
especialmente no tocante à "cultura material" (que é
representada nos adornos, objetos de uso ritual, ou
domésticos) mantêm a força mais sutil da
alma e sua herança mais ancestral permanece. Mesmo
que transmutada, (ela) continua alimentando a identidade.
O Resgate do Princípio Feminino
O fundamento organizador básico desta identidade resgatada é a
identidade do princípio feminino, como falei no início. Como os
indígenas estão na escala mais baixa da sociedade por sua
cultura ser estruturada sob o princípio feminino, as suas
mulheres estão mais abaixo ainda, exatamente por serem a sede
direta deste princípio abominado em nossa sociedade. Que mãe
deixaria seus filhos morrerem à míngua em nome de ter isto ou
aquilo?
A indígena Eliane Potiguara, que incorpora o feminismo e o
socialismo em sua pauta de luta, afirma que:
É preciso resgatar as funções que a mulher
indígena desempenhava antes do processo colonial, quando era
venerada e tinha a última palavra na discussão dos problemas
políticos(
.)
Aos olhos da sociedade, as mulheres indígenas estão
abaixo da última das camadas da sociedade. Indígenas, pobres,
discriminadas, excluídas, invisíveis, mão-de-obra escrava em
plantios de cana-de-açúcar, algodão e outras culturas.
Quando estão próximas a mineradoras, são objeto sexual
de garimpeiros ou mineradores, como relatam muitas histórias que
já ouvimos dos ianomâmis, em Roraima.
Nas cidades, empurradas por alguma razão social e
política de sua nação, tornam-se prostitutas nas grandes
cidades, objetos de tráfico internacional de mulheres,
empregadas domésticas ou operárias mal remuneradas.
Urge um trabalho de conscientização nas aldeias contra a
violência doméstica e sexual, contra o estupro, o assédio, o
alcoolismo que resultam nas violências interpessoais, nas
intrigas, nos distúrbios psicológicos, nos suicídios.
Eliane faz coro com quem acredita que Governo e ONGs devem
implantar um programa imediato de defesa dos direitos
reprodutivos e de saúde integral. Para ela, isto é urgente: nas
nações que mais sofreram os resultados maléficos da
neocolonização, como os povos ressurgidos e os
quilombolas, e chega a dizer que para
compreender os negros temos que compreender os índios pois os
negros são os índios da África.
E ela está com toda a razão neste ponto. Essas nações têm
consciência de sua identidade mas precisam de apoio em todos os
sentidos, seja do apoio que vem de dentro delas mesmos, seja do
apoio que venha da sociedade nacional e internacional, por
exemplo através de uma organização como a United Religions
Initiative [URI].
O Perdão e a Mãe Universal
Quem está atento à questão indígena sabe que o diálogo
inter-cultural e inter-religioso com eles enfrenta muitas vezes
hoje uma espécie de movimento quase separatista em relação à
todas as outras culturas defendido por parte de lideranças das
populações originárias.
Esta posição é muito presente e obriga uma estratégia
especial. Muitos deles expressam constantemente sua revolta, pois
existe um ressentimento muito profundo, que é perfeitamente
compreensível. Ainda mais quando se leva em conta a enorme e
variadíssima contribuição da cultura indígena para a
Humanidade.
É muito fácil perceber a importância indígena. Já procurei
mostrar aquela que é, para mim, a mais importante de todas: ter
o princípio da Natureza enquanto viva como o estruturador de
suas cosmovisões.
Pois é a partir desta conexão com a Mãe Universal que eles,
por exemplo, descobriram:
- o algodão, para o qual criaram todas as técnicas de
colheita, fiação, tecelagem e tintura mais tarde
importadas pelos europeus;
- foram eles também que descobriram o chocolate;
- e o milho, que era cultivado nas três américas, com
cada povo com seus híbridos favoritos, que atingem
dezenas de variedades, formatos, cores, sabores,
nutrientes, entre eles o milho azul (hoje, no entanto, o
milho é uniformizado pela indústria agro-pecuária no
mundo todo);
- o amendoim também, original da costa brasileira;
- o tabaco, que os europeus transformaram de um costume
medicinal e cerimonial em um vício mortal;
- a própria batata, que no início foi banida pelo clero
pois não era mencionada na Bíblia;
- o tomate também; a mandioca que, apesar de venenosa em
seu estado cru, já era depurada do ácido cianídrico
pelos índios;
- e a seringueira, que deu origem à borracha e dispensa
comentários acerca de sua importância.
Quem entre nós não conhece feijão, abóbora, pepino,
chuchu, batata-doce, berinjela, alcachofra, pimentas, abacate,
abacaxi, caju, mamão, maracujá e variedades de banana, por
exemplo?
Pois é tudo descoberta indígena. Trabalho indígena. Cultivo
indígena.
As várias ervas medicinais, para dar mais um exemplo, cujas
fórmulas indígenas foram aperfeiçoadas pelo homem branco,
compõem mais de três quartos de todas as drogas de origem
vegetal conhecidas.
Com exceção de algumas poucas espécies, nos lembra o xamã
e etnobiólogo Rogério Favilla, não há espécie utilizada na
farmacopéia moderna cujas propriedades já não fossem
conhecidas pelos índios. E ainda há muitas outras espécies que
são desconhecidas pelo homem civilizado.
É Favilla que esclarece:
"Aos nativos pré-colombianos devemos, entre
inúmeras coisas, a rica herança etnobotânica que
revolucionaria a dietária e a farmacopéia comparativamente
precária dos europeus colonizadores e de suas matrizes desde
época das navegações.
Não apenas apresentaram aos pasmos europeus as plantas em
si, como o milho, o tomate, a batata, o tabaco, o cacau, a
mandioca, o inhame, o feijão, o caju, a batata-doce, o abacate,
o pepino, a berinjela, o abacaxi, o palmito, e tantas outras hoje
presentes nos pratos de todo o mundo (dos que tem acesso aos
alimentos, é claro), mas também ensinaram como cultivá-los e
prepará-los adequadamente (a mandioca e seu ácido prússico,
por exemplo).
Ao contrário dos que pensam serem os nativos criaturas
obtusas, a arte do cultivo e melhoria genética através da
cuidadosa seleção das linhagens e de técnicas sofisticadas de
plantio e adubagem foi plenamente desenvolvida pelos
ameríndios [9].
E para além desta dimensão, já no nível da reformulação
política e social, o Ocidente também aprendeu muito com a voz
indígena, como assinala com perfeição Favilla:
No campo da reformulação social e política que se
prenunciava na Europa do século XVIII encontramos a descrição
utópica da vida comunal dos índios brasileiros nos relatos de
cronistas populares como Léry, Thevet e Hans Staden
influenciando profundamente as formulações
filosófico-políticas de ideólogos da Revolução Francesa (e
da Revolução Americana) como Montaigne e Rosseau [10]".
É muito interessante lembrar que, além disso, temos um exemplo
arquetípico da importância indígena. Arquetípico porque diz
respeito à sede do Império atual: os Estados Unidos.
Quando os colonos patriarcas ingleses desembarcaram do
Mayflower lá, tiveram suas vidas salvas pelos nativos, que os
ensinaram como caçar o abundante peru, pescar o salmão e as
trutas, e a plantar e estocar o milho. Foi esta sabedoria que
permitiu que eles sobrevivessem ao primeiro inverno.
Até hoje este momento decisivo é anualmente relembrado pelos
EUA no importante feriado, e olha que eles são raros, de
Thanksgiving Day.
Do alto de toda esta sabedoria, os indígenas estão hoje diante
do desafio de exercer uma das mais desafiadoras posições do
crescimento humano espiritual: a do perdão.
Ao passo que as culturas responsáveis por esta barbaridade
precisam servir ao mundo compartilhando o sagrado indígena e os
ajudando em tudo, de maneira a que eles, guardiões da
Terra-Mãe, possam liberar a nossa re-integração à Mãe
Divina.
Construíndo uma Cultura de Cura e Paz
Dentro da contribuição indígena para a construção de uma
cultura de cura e de paz, as plantas sagradas ocupam um lugar de
grande destaque, pois as capacidades medicinais e/ou curativas
delas são capazes realmente de promover resultados brilhantes,
mesmo em pessoas habitualmente afastadas de sua natureza original
e de suas inalienáveis arqui-relações com o reino vegetal.
Esta é uma questão muito importante mesmo, da qual tratarei
especificamente em outra oportunidade. No entanto, sublinho que a
tradição indígena ensina que a utilização dos processos
curativos das plantas deve sempre ser movido pela consciência,
no caso pela consciência das leis cósmicas.
Isto nos interessa quando queremos escutar a voz indígena,
visto que muitas pessoas buscam todo tipo de infusões, poções,
elixires, etc., mas não conseguem encontrar a cura, pois não
querem reconhecer e corrigir os próprios erros que contribuíram
para o surgimento de seus males.
Ou seja, modificaram o nível de consciência que têm, e que
gera dieta prejudicial, problemas afetivo-emocionais, hábitos
errados de higiene, vícios, etc.
Para a voz indígena, como para todas as tradições espirituais
antigas da humanidade, a verdadeira cura é um processo
totalmente dependente da conduta e do comportamento psíquico do
indivíduo, que se não for condizente com a normalidade fluente
da natureza só gerará resultados frustrantes, até mesmo com o
uso das plantas de poder.
Precisamos mudar a nossa compreensão do mundo.
É desta forma que a voz indígena vive um momento decisivo de
sua história. Exatamente porque a Humanidade vive um momento
decisivo de sua história.
Como Pierre Weil [11] esclareceu, a busca constante de
felicidade que caracteriza o ser humano confirma a presença de
uma memória enterrada no âmago de sua existência. A memória
de um estado de plenitude sem obstáculos e de êxtase
permanente.
É deste estado que nos fala a Voz Indígena.
Notas do artigo: A Voz Indígena
[1] Evandro Vieira Ouriques, Doutor em Comunicação e
Cultura pela UFRJ, cientista político e jornalista, dedica-se -
a partir de suas pesquisas e vivências no campo das relações
entre política, espiritualidade e cura - à Filosofia
Terapêutica e a sua aplicação a pessoas e organizações. É
membro da Comissão Executiva do Movimento Inter-Religioso do Rio
de Janeiro/ISER, membro-fundador da ONG Shalom Salam Paz e membro
do Conselho Diretor do Centro de Estudos Transdisciplinares de
Comunicação e Consciência-CETCC/Escola de Comunicação/ UFRJ,
que criou em 1981.
[2] Sobre esta questão é muito bom ler O Renascimento da
Natureza - o reflorescimento da Ciência e de Deus, do biólogo e
filósofo da natureza Rupert Sheldrake, publicado pela Editora
Cultrix, no qual ele faz uma síntese brilhante e clara de como a
Humanidade desconectou-se da Natureza quando o pacífico modo
humano de vida vigente por milhares de anos foi rompido entre
4.000 e 3.500 a.C por hordas de invasores cujos deuses guerreiros
destronaram as antigas deusas, rebaixando-as a esposas, filhas e
consortes nos novos panteões dominados pelo patriarcado, e como
esta reconexão vem acontecendo ao nível filosófico e
científico.
[3] Para mais de 7.500 a.C.
[4] Ver, p.ex.: ELIADE, Mircea, Tratado de História das
Religiões, 193-212; e ZIMMER, Heinrich, Filosofias da India, pp.
117, 180, 189, 190, 311, 389, 391, 396, 404, 407 e 409.
[5] O esquecimento do esquecimento do Ser é o diagnóstico do
filósofo alemão Martin Heidegger para a crise do Ocidente,
entendido aqui não em termos geográficos mas em termos do
paradigma dominante.
[6] Sobre este assunto o Consejo Latinoamericano de Ciencias
Sociales mantêm a publicação Observatorio Social de América
Latina. Ver www.clacso.edu.ar
[7] E não necessariamente religiosa pois grande parte do
esforço religioso está preso ainda à institucionalização de
relações de poder nas quais a espiritualidade está esquecida.
[8] A percepção em verdade é anterior, ainda que indireta. Na
década de 70 a UNESCO começou a trabalhar o conceito de
Desenvolvimento Cultural, ou seja, que o desenvolvimento
econômico real só é possível a partir dos próprios valores
culturais de cada comunidade. Toda a minha atuação no longo
tempo que atuei no Ministério da Cultura do Brasil, a partir de
1980, foi neste sentido.
[9] In Cultura Xamânica e Sabedoria Ancestral, Rogério Favilla,
Diálogo entre as Civilizações, Modelos Concretos de
Integração Cooperativa da Humanidade. ONU, 2002. Evandro Vieira
Ouriques, editor.
[10] Ver os livros de Afonso Arinos de Melo Franco O Índio
Brasileiro e a Revolução Francesa e As Origens Brasileiras da
Teoria da Bondade Natural (publicados pela Coleção Documentos
Brasileiros, José Olímpio, Rio de Janeiro, 1937) e citados por
Moog, Viana: Pioneiros e Bandeirantes: paralelo entre duas
culturas, Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 7a
edição, 1964.
[11] Ver WEIL, Pierre. A Neurose do Paraíso Perdido. Co-edição
Espaço e Tempo/CEPA, Rio de Janeiro, 1987
Consciência.Net
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