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Escrito por Keite Camacho   
Monday, 18 October 2004

"Campanha de desinformação quer constranger governo brasileiro", diz Bustani


Notícias internacionais sobre a suposta preocupação de países desenvolvidos para que o Brasil permita as inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) na fábrica de enriquecimento de urânio em Resende (RJ) não revelam declarações oficiais, mas deixam no ar a idéia de que o Brasil está fazendo algo errado.

A afirmação é de José Maurício Bustani, embaixador do Brasil em Londres e ex-diretor da Organização para a Proibição das Armas Químicas (Opaq). A visita dos inspetores da AIEA está marcada para amanhã.

Bustani diz ter “a sensação de que há uma campanha de desinformação para constranger o governo brasileiro”..

Segundo o artigo publicado pelo embaixador no jornal Folha de S. Paulo, "importantes interesses parecem incomodados com o fato de o Brasil, ao passar a enriquecer urânio em escala comercial, estar se tornando um país cada vez mais capacitado na
área nuclear".


O embaixador afirma que todas as iniciativas brasileiras seguem os princípios constitucionais, que proíbem atividades nucleares com fins militares.

E acrescenta: “nossas aspirações nucleares são legítimas e pacíficas e visam atender às necessidades de nosso extenso litoral, às demandas do desenvolvimento”.

Bustani explica em seu artigo* que a unidade de Resende permitirá o enriquecimento de urânio em escala comercial, tornando o país autônomo na produção de combustível nuclear.

Segundo ele, o Brasil poderá exportar o produto e quebrar o monopólio internacional na área. “Preocupa que o Brasil avance em seu projeto de propulsão naval, tornando-se o sétimo ou oitavo país do mundo a se dotar de um submarino nuclear, alcançando proeminência estratégica no Atlântico Sul”, afirma no artigo.

O embaixador acredita que será encontrada a solução técnica para garantir a inspeção da AIEA. “Se a nossa tecnologia vazar, não apenas perderemos competitividade científica, técnica, comercial e industrial, como nossos intensos esforços de capacitação nuclear podem vir a ser retardados, como acontece há décadas”.

E acrescenta: “Não podemos permitir que se possam mapear aspectos de nossa tecnologia em que ainda não alcançamos capacitação plena”.

Agência Brasil

 

(*) Artigo, por JOSÉ MAURICIO BUSTANI

Em defesa do programa nuclear brasileiro

Desagrada-me o fato de ver o Brasil mencionado recentemente nos grandes jornais internacionais como um país cujas atividades nucleares seriam preocupantes.

Na semana passada, o "Times", de Londres, recomendou que os Estados Unidos "tomassem cuidado com o Brasil" (a propósito, o jornal não aceitou publicar a íntegra de carta que em resposta lhe dirigi).

Coincidentemente, no mesmo dia um "ex-funcionário" do Pentágono declarou que a Aiea (Agência Internacional de Energia Atômica) andaria suspeitando que o Brasil tivesse realizado operações de "compra" do cientista paquistanês A. Q. Khan.

Estranhamente, essas imprecisas acusações contra o Brasil nunca são oficiais, mas deixam no ar a séria sugestão de que o país está fazendo algo de errado.

Minha experiência como diretor-geral da Opaq faz-me acreditar que esteja em curso uma campanha de desinformação destinada a constranger o governo brasileiro para dele obter "concessões" na área nuclear.

O que estamos fazendo que tanto preocupa certos países e a Aiea?

O governo brasileiro não tem nada a esconder: somos uma democracia, em que todas as iniciativas do Estado estão sujeitas a controles com base na norma constitucional, que proíbe atividades nucleares para fins bélicos.

O Brasil é signatário de diversos tratados internacionais. Sujeita-se às inspeções rotineiras da Aiea. A nossa ultracentrífuga, a ser usada em Resende, não deveria suscitar tanta preocupação.

Trata-se de equipamento desenvolvido endogenamente, que já está em operação há vários anos em instalações inspecionadas pela agência.

Por que, então, em Resende, tem a Aiea exigido "mais acesso"?

Por que se pede com tanta veemência que o Brasil assine já o Protocolo Adicional de Salvaguardas, que daria ainda maior poder de acesso à Aiea?

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Importantes interesses parecem incomodados por o Brasil estar se tornando cada vez mais capacitado na área nuclear
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No fundo, importantes interesses parecem incomodados com o fato de o Brasil, ao passar a enriquecer urânio em escala comercial, estar se tornando um país cada vez mais capacitado na área nuclear.

Não é bem visto, ademais, que o Brasil se torne autônomo na produção de combustível nuclear (é isso que a fábrica de Resende representa), podendo até mesmo exportar o produto e quebrar o oligopólio internacional na área.

Preocupa que o Brasil avance em seu projeto de propulsão naval, tornando-se o sétimo ou oitavo país do mundo a se dotar de um submarino nuclear, alcançando proeminência estratégica no Atlântico Sul.

Parto do princípio de que, em razão de nossas credenciais únicas, a ninguém pode ocorrer a absurda possibilidade de fabricarmos a bomba.

Nossas aspirações são legítimas e pacíficas e visam atender às necessidades de nosso extenso litoral, bem como às demandas de uma nação sedenta de desenvolvimento.

Cabe lembrar, por exemplo, a última crise energética sofrida pelo país -o que exige que exploremos as fontes de energia disponíveis para atender ao sustentado crescimento da economia.

A proteção da tecnologia não é pretexto do governo para transgredir acordos internacionais. Não sejamos ingênuos: se patente resolvesse, as potências nucleares teriam patenteado a bomba atômica!

A tecnologia da ultracentrífuga é 100% nacional e tem diferenciais importantes em relação às de outros países (quem não acredita que o Brasil é capaz de desenvolver tecnologia, que se lembre da nossa urna eletrônica, da declaração de Imposto de Renda pela internet, dos programas que tanta agilidade conferiram ao nosso sistema bancário...).

Se nossa tecnologia autóctone vazar, não apenas perderemos competitividade científica, técnica, comercial e industrial, mas também nossos intensos esforços de capacitação nuclear podem vir a ser mais facilmente retardados, como o vêm sendo há décadas.

Lembro que, apesar de ter assinado o Tratado de Não-Proliferação em 1998, além de todos os demais instrumentos internacionais pertinentes, o Brasil continua sofrendo restrições à aquisição de materiais nucleares no exterior.

Não podemos permitir que se possam "mapear" aspectos de nossa tecnologia em que ainda não alcançamos capacitação plena: aí está nossa vulnerabilidade.

Novamente, não sejamos ingênuos.

Quando eu era diretor-geral da Opaq, nunca pude estar seguro, apesar de meu rigoroso envolvimento pessoal, de que o sofisticado regime de confidencialidade de "última geração" lá adotado fosse suficientemente confiável.

O governo brasileiro demonstra muito boa vontade e, porque nada de ilícito tem a esconder, vai seguramente encontrar a solução técnica que permita à Aiea verificar criteriosamente a inexistência de atividades nucleares não-declaradas em Resende, até mesmo -quem sabe? -por meio da eventual aplicação do protocolo adicional, sem prejuízo de nossos interesses legítimos.

Parece-me imperativo que a sociedade brasileira -em especial nosso Congresso Nacional e nossa imprensa- não se deixe iludir por certo "botabaixismo" doméstico e por insinuações alienígenas despropositadas sobre as atividades nucleares do Brasil.

Devemos rechaçar a idéia de que somos um país "periférico".

O governo do presidente Lula está cuidando dos interesses estratégicos do país. É preciso que a sociedade brasileira se mantenha unida diante dessa questão essencial para o futuro do Brasil.

José Mauricio Bustani, 59, diplomata, é o embaixador do Brasil em Londres. Foi diretor-geral da Opaq (Organização para a Proibição de Armas Químicas), de 1997 a 2002.

 

NOTIMP n°: 284 (10/2004)

fab.mil.br

Comentarios (2)Add Comment
Tecnologia nuclear
escrito por wantemberg, 2007-05-14 03:38:38
O Brasil deve continuar com o projeto, de propulsão nuclear de submarinos e navios. Não podemos ficar parados, a confiar nos outros, achando que o Brasil é um país passífico, e ninguem vai tirar proveito!
Depois não chore pelo leite derramado!!!
En defensa del programa nuclear brasilero
escrito por Jorge Cárdenas Medina, 2008-03-01 02:25:48
Me parece perfecto que Brasil termine de desarrollar un reactor nuclear de potencia 100 % brasilero para producir energia y para propulción de barcos (submarinos principalmente) ya que esto es esencial para el futuro desarrollo como pais alcanzando el dominio de la energia nuclear, de manera de no depender de proveedores foraneos y sufrir embargos, ademas para Brasil es esencial la energia si quiere crecer como economia a tasas que aseguren su desarrollo y no su atrazo.
Ademas tener un reactor nuclear y adaptarlo para la propulcion de sumergibles le permitira a Brasil controlar su inmenso litoral y su area economica esclusiva ademas de patrullar su enorme plataforma continenta y proyectar su poder por todo el atlantico sur y cuidar sus intereses en la antartida y en cualquier lugar del planeta, ademas deberia desarrollar la tecnologia de guia terminal de los misiles de crusero con los que deberian ir equipados sus misiles lanzados desde el submarino, tambien desarrollar cabezas de guerra no nucleares potentes como la de aire combustible y otras para uso defendivo ante cualquier potencia que tenga intereses en usurpar su territorio tan basto y rico
No hay que olvidar que Brasil tiene enormes reservas de minerales (HIERRO, URANEO, cobre, zinc, oro, etc), es un productor de alimentos de origen agricola y ganadero tremendo (ES EL NUEVO GRANERO DEL MUNDO) tiene enormes y cada ves mas grandes reservas de PETROLEO y GAS, no hay que olvidar tambien que tiene una BIIODIVERSIDAD muy importante en el AMAZONAS, en el PANTANAL, en la MATA ATLANTICA etc. ademas tiene enormes reservas de AGUA DULCE (las proximas guerras seran por el dominio del agua)
POR ESTO Y POR MUCHAS OTRAS COSAS MAS BRASIL NO SOLO DEBE DESARROLLAR LA TECNOLOGIA NUCLEAR, sino tambien la espacial, la nanotecnologia, la ingenieria genetica, la biotecnologia, la electronica, los nuevos materiales, la informatica, etc y FORTALESER SUS FUERZAS ARMADAS.
Su ferza aerea requiere de aviones modernos de caza y ataque, helicopteros de transporte y ataque, aviones de transporte pesados, entrenadores modernos, todos ellos con su equipo de combate, ademas de nuevas plataformas volantes con radares, aparatos electronicos de espionage e interferencia electronica y de señales.
Su ejercito requere adquir mayor movilidad tactica y estrategica (debe tener elicopteros en mayor cantidad de transporte y ataque asi como avines de transpòrte) debe poseer tanque de desarrollo autoctono (habria que pensar en desarrollar un OSORIO II), vehiculos de tranporte de personal a cadenas y a ruedas.
Hay que fortaleser la defensa nacional si el pais quiere ser grande y respetado, se debe ser fuerte para que se lo respete pero no abusivo.

muchas gracias.

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