Fala, Brasil! - A Imagem do Brasil
  Página Inicial arrow Colunistas arrow Claudio Schamis arrow A Imagem do Brasil Thursday, 20 November 2008 
Fala, Brasil !
Página Inicial
Fórum
Artigos
Forum Fala, Brasil!
Colunistas
Notícias
Mapa do Site
Dê um toque
Add to Technorati Favorites
Login (gratuíto)





Esqueceu sua senha?
Ainda não tem uma conta de acesso? Registre-se
Itens Relacionados
Estatísticas
Brazil / Organic personal skin care wholesale
A Imagem do Brasil PDF Imprimir E-mail
Escrito por Cristovam Buarque   
Monday, 18 October 2004

"Para que o Brasil passe a ter boa imagem no exterior, precisamos mudar a realidade, repetir o gesto da libertação dos escravos, fazendo desta vez uma segunda abolição: a abolição da pobreza".

Quando John Lennon foi assassinado em Nova York, ninguém colocou a culpa nos EUA. A morte do maior de todos os ídolos da música naquele momento foi jogada exclusivamente em cima de um fanático louco.

Agora, quando assaltantes mataram o herói neozelandês Peter Blake, em Macapá, o mundo inteiro se levantou contra um crime brasileiro.

Porque esse crime é parte de uma imagem negativa que tem o Brasil nos dias de hoje.

A morte do navegador neozelandês, por exemplo, não foi ato de fanáticos loucos, mas de assaltantes e não é um fato isolado em um país conturbado pela violência em todas as suas formas, com mortes nas ruas, linchamentos constantes, chacina. Não é a primeira vez que isso ocorre.

No século XIX, quando um brasileiro ia à Europa, era visto como escravocrata; hoje,

"tenha ou não culpa, cada brasileiro é visto como queimador de florestas da Amazônia, assassino de crianças na Candelária e de presos em Carandiru, como representante de um país com maior violência urbana e maior concentração da renda".

Em alguns países da Europa, o Brasil é visto como o país do turismo sexual, com destaque para o abuso contra crianças.

Da mesma maneira como o mundo hoje se pergunta por que somos tão violentos a ponto de assassinarmos um velejador, eles se perguntam como é possível receber semanalmente aviões com turistas que procuram o Brasil como se fosse uma zona de prostituição de menores.

Tudo fruto de um modelo equivocado de desenvolvimento, que ao longo de décadas definiu a riqueza material como o objetivo central da sociedade, que promoveu a chamada "lei de Gerson", que concentrou a renda, que abandonou os investimentos sociais, que endividou o país e as pessoas, que tolerou a contravenção, a corrupção, que quebrou os valores tradicionais, que urbanizou-se antes de criar as condições necessárias nas cidades.

Um país que escolheu um caminho onde apenas uma parte se incorporava na sociedade e o resto ficava excluído, à margem da riqueza, insuflado pela maldade do modelo para fazer suas próprias maldades.

Cada vez que tomamos conhecimento de atos que nos envergonham, como o desta semana, ficamos indignados durante alguns dias e depois esquecemos.

Foi assim com o assassinato dos meninos na Candelária, dos presos em Carandiru, dos mortos por causa da hemodiálise em Caruaru, do menino que perdeu um olho e depois o outro trabalhando no sisal, de um homem que cortou o braço para receber seguro, de um jovem chamado Sandro, que seqüestrou um ônibus no Rio de Janeiro, de cada linchamento ou chacina.

Durante um dia lembramos do assunto, mas, de tão acostumados com essas tragédias, elas entram na rotina da banalização e nós esquecemos.

"O resto do mundo, entretanto, não esquece".

Em 2001, o presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva considerou um grande feito ter falado no Parlamento francês.

Os deputados daquele país ouviram atentamente, até podem ter simpatizado com a articulação do discurso feito, mas no fundo eles lembravam que aquele senhor representava um país que assassina crianças e nega boas escolas às sobreviventes, um senhor cujo país tem violência e prostituição infantil.

"Essa imagem não será abolida por meio de discursos".

Para que o Brasil passe a ter uma boa imagem no exterior precisamos mudar a realidade, repetir o gesto da libertação dos escravos, fazendo desta vez uma segunda abolição: a abolição da pobreza.

A garantia de que ninguém neste país deixará de ter acesso aos bens e serviços essenciais — comida de que precisa, uma escola de qualidade, um eficiente sistema de saúde, transporte público e um lugar onde morar com água potável, coleta de lixo e esgoto.

Isso é possível.

Bastaria, em primeiro lugar, que a indignação diante do assassinato de um herói mundial, velejador e ecologista estrangeiro durasse o tempo que fosse necessário e se ampliasse para incluir nossa indignação também com a desigualdade social de nosso país.

E, sobretudo, que cada um de nós assumisse sua parcela de culpa pelo tipo de país que estamos construindo.

Foi um grupo de bandidos que assaltou e matou o velejador, no Amapá, mas cada um de nós é responsável pelos crimes de cada brasileiro e, sobretudo, pelos fatos que vão degradando nossa imagem diante de nossos olhos e dos olhos dos demais povos do mundo.

Somos nós que, ano após ano, convivemos com um modelo social fabricante de bandidos.

Somos nós que, eleição após eleição, elegemos o mesmo tipo de dirigentes insensíveis aos problemas nacionais, aos equívocos nacionais, achando que bonitos discursos mudam a realidade.

Já não temos o que fazer para nos redimir diante de de tantas vítimas estrangeiras, e nacionais da visível violência urbana ou da silenciosa maldade social, mas podemos prestar-lhes uma homenagem, fazendo com que suas mortes e sofrimentos não tenham sido em vão, e despertarmos para a necessidade de mudar o Brasil real, para que sua imagem mude também.

Diante do mundo e dentro de cada um de nós.


Cristovam Buarque é Ph.D. em Economia. Foi governador do Distrito Federal (1995-98), em 2002 elegeu-se senador pelo PT com a maior votação dada a um político no Distrito Federal. Foi Ministro da Educação (2003-04). É membro do Instituto de Educação da Unesco. Autor do livro "Admirável Mundo Atual". Você pode visitar sua homepage - http://www.cristovam.com.br e escrever-lhe em Esse endereço de e-mail está sob proteção contra Spam (spam bots).Por conseguinte, você deve ativar o recurso Javascript para poder visualizar isso

Comentarios (1)Add Comment
Ver Mapas
escrito por Visitante, 2005-12-06 14:53:38

Escreva seu Comentario
quote
bold
italicize
underline
strike
url
image
quote
quote
smile
wink
laugh
grin
angry
sad
shocked
cool
tongue
kiss
cry
smaller | bigger

security code
Escreva os caracteres mostrados


busy
 
< Anterior   Próximo >
FeedBurner


Receba conteúdo grátis

Nosso Feed
Humor Brasileiro
  Kibe Loco
Folha de S. Paulo
powered by joomla open source designed by joomla-templates.com