Fala, Brasil! - Perigo Eminente: A Ruptura da 'Raça' Brasileira
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Perigo Eminente: A Ruptura da 'Raça' Brasileira PDF Imprimir E-mail
Escrito por Cristovam Buarque   
Saturday, 16 October 2004
"Por trás da imprensa e do Diário Oficial, o Brasil real vai sendo construído. Caminha para uma democracia cada vez mais participativa e responsável".

A economia cresce, e em breve seremos competitivos em indústrias de ponta; a agricultura nos tornará um celeiro do mundo, o turismo ampliará sua participação na renda nacional.

Mas dificilmente nossa renda per capita nos aproximará dos países do Primeiro Mundo, ou dos novos ricos que formam um Novo Segundo Mundo.

O Brasil continuará sendo o campeão da concentração de renda. Não vivemos a tragédia africana, mas tampouco distribuímos renda de maneira conseqüente e sustentável.

A educação – "único" instrumento capaz de mudar o padrão de distribuição da renda – vai melhorar em número de matrículas, de concluintes do ensino médio, de candidatos a curso superior.

Mas essas melhorias são "insuficientes" para reduzir a distância entre ricos e pobres, ou a crescente lacuna entre o nosso nível educacional e o de países que investiram seriamente na educação de seu povo.

Mantido o rumo atual, não seremos exportadores de ciência e tecnologia, salvo setores isolados; não seremos grandes produtores de arte, nem ganharemos mais medalhas olímpicas.

A saúde certamente trará melhorias na qualidade e universalização do atendimento, mas as condições de moradia não darão grandes saltos.

As cidades, sobretudo, tendem ao caos urbano, e a insegurança a se tornar incontrolável, em função do grande crime organizado ou do pequeno crime desorganizado.

Surpreendentemente, dois setores avançam e dão sinais de crescer: "a solidariedade e a organização".

Os últimos anos mostram um aumento na organização da sociedade e nas ações de responsabilidade social, por parte dos mais ricos.

Mas a responsabilidade social não evolui obrigatoriamente da assistência para a transformação.

E a organização social pode aumentar o corporativismo, com grupos lutando em defesa própria, desconsiderando e até rompendo o tecido social.

Apesar da maior organização e solidariedade, pode-se prever o crescimento da distância entre os extremos: os 10% mais ricos, famílias com salário médio mensal de R$5.600, e os 50% mais pobres, famílias que recebem em média R$272 por mês.

Mais grave, cresce a distância no acesso e na qualidade dos serviços essenciais conforme a classe social.

Essa é a tendência mais "grave" que aponta para o futuro, se mudanças urgentes não ocorrerem, haverá uma "desigualdade" tão grande que consolidará a "ruptura" da espécie brasileira em dois grupos que: não se reconhecerão; serão distintos, mais do que desiguais; formarão "raças" diferentes na cultura e nos interesses.

Há anos que muitos mostram essa tendência, e há anos insistimos em manter essa direção, apesar da ilusão dos rituais da política, dos dados da economia e dos tímidos avanços da educação e da saúde.

Mas mesmo cada vez mais distantes de países que formam o Novo Segundo Mundo, temos os recursos e todas as condições para reorientar nosso destino.

Não alcançaremos os países que mudaram seu rumo no século XX, mas podemos reorientar o nosso no século XXI.

Pena que a superficialidade da política nos impeça de realizar a mudança de que o Brasil precisa.

Na semana passada, apesar do seu compromisso e da esperança que nos inspirou, o Presidente da República 'vetou' um modesto "Choque Social" contido no Orçamento para 2005.

Recusou-se a acenar com um rumo novo, deixando-nos projeções trágicas de para onde vamos, carregados de pessimismo com o realismo que elas parecem conter.

Cristovam Buarque é Ph.D. em Economia. Foi governador do Distrito Federal (1995-98), em 2002 elegeu-se senador pelo PT com a maior votação dada a um político no Distrito Federal. Foi Ministro da Educação (2003-04). É membro do Instituto de Educação da Unesco. Você pode visitar sua homepage - http://www.cristovam.com.br e escrever-lhe em Esse endereço de e-mail está sob proteção contra Spam (spam bots).Por conseguinte, você deve ativar o recurso Javascript para poder visualizar isso

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