"Por trás da imprensa e do Diário Oficial, o Brasil real vai sendo construído. Caminha para uma democracia cada vez mais participativa e responsável".
A economia cresce, e em breve seremos competitivos em indústrias
de ponta; a agricultura nos tornará um celeiro do mundo, o
turismo ampliará sua participação na renda nacional.
Mas dificilmente nossa renda per capita nos aproximará dos países
do Primeiro Mundo, ou dos novos ricos que formam um Novo Segundo
Mundo.
O Brasil continuará sendo o campeão da concentração de
renda. Não vivemos a tragédia africana, mas tampouco distribuímos
renda de maneira conseqüente e sustentável.
A educação "único" instrumento capaz
de mudar o padrão de distribuição da renda vai melhorar
em número de matrículas, de concluintes do ensino médio, de
candidatos a curso superior.
Mas essas melhorias são "insuficientes" para
reduzir a distância entre ricos e pobres, ou a crescente lacuna
entre o nosso nível educacional e o de países que investiram
seriamente na educação de seu povo.
Mantido o rumo atual, não seremos exportadores de ciência e
tecnologia, salvo setores isolados; não seremos grandes
produtores de arte, nem ganharemos mais medalhas olímpicas.
A saúde certamente trará melhorias na qualidade e
universalização do atendimento, mas as condições de moradia não
darão grandes saltos.
As cidades, sobretudo, tendem ao caos urbano, e a insegurança
a se tornar incontrolável, em função do grande crime
organizado ou do pequeno crime desorganizado.
Surpreendentemente, dois setores avançam e dão sinais de
crescer: "a solidariedade e a organização".
Os últimos anos mostram um aumento na organização da
sociedade e nas ações de responsabilidade social, por parte dos
mais ricos.
Mas a responsabilidade social não evolui obrigatoriamente da
assistência para a transformação.
E a organização social pode aumentar o corporativismo, com
grupos lutando em defesa própria, desconsiderando e até
rompendo o tecido social.
Apesar da maior organização e solidariedade, pode-se prever o
crescimento da distância entre os extremos: os 10% mais ricos, famílias com salário médio mensal de R$5.600, e os 50% mais pobres, famílias que recebem em média R$272 por mês. Mais grave, cresce a distância no acesso e na qualidade dos
serviços essenciais conforme a classe social.
Essa é a tendência mais "grave" que
aponta para o futuro, se mudanças urgentes não ocorrerem,
haverá uma "desigualdade" tão grande que
consolidará a "ruptura" da espécie
brasileira em dois grupos que: não se reconhecerão; serão distintos,
mais do que desiguais; formarão "raças" diferentes na cultura e nos interesses.
Há anos que muitos mostram essa tendência, e há anos
insistimos em manter essa direção, apesar da ilusão dos
rituais da política, dos dados da economia e dos tímidos avanços
da educação e da saúde.
Mas mesmo cada vez mais distantes de países que formam o Novo
Segundo Mundo, temos os recursos e todas as condições para
reorientar nosso destino.
Não alcançaremos os países que mudaram seu rumo no século
XX, mas podemos reorientar o nosso no século XXI.
Pena que a superficialidade da política nos impeça de realizar
a mudança de que o Brasil precisa.
Na semana passada, apesar do seu compromisso e da esperança
que nos inspirou, o Presidente da República 'vetou'
um modesto "Choque Social" contido no Orçamento
para 2005.
Recusou-se a acenar com um rumo novo, deixando-nos projeções
trágicas de para onde vamos, carregados de pessimismo com o
realismo que elas parecem conter.
Cristovam Buarque é Ph.D. em Economia. Foi governador
do Distrito Federal (1995-98), em 2002 elegeu-se senador pelo PT
com a maior votação dada a um político no Distrito Federal.
Foi Ministro da Educação (2003-04). É membro do Instituto de
Educação da Unesco. Você pode visitar sua homepage - http://www.cristovam.com.br
e escrever-lhe em
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