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Para Além da Hipocrisia e da Mistificação PDF Imprimir E-mail
Escrito por Pedro Porfírio   
Friday, 15 October 2004

"Não há nada mais ingênuo - ou desonesto - do que falar em esquerda e direita neste País assolado pela corrupção, a hipocrisia, o arrivismo, a alienação e a ausência total e absoluta de escrúpulos, em todos os ambientes, num desprezo ostensivo por toda e qualquer referência, seja ética, ideológica ou moral", Pedro Porfírio.

O que se viu no primeiro turno, e se vê no segundo, nas eleições municipais? Uma guerra suja entre os podres poderes - o impávido poder econômico e as máquinas do poder político, nos seus vários níveis, acrescentando-se a eles o poder da mistificação e do abuso da fé.

Pelo menos no Rio de Janeiro os trampolins eleitorais foram construídos a partir dos encastelados nos governos - o federal, o estadual e o municipal, com essas absurdas regras que remetem para a lixeira parâmetros teoricamente essenciais ao regime em que "todo o poder emana do povo e em seu nome será exercido".

No caso, o partido federal deu cobertura ao candidato do PT, Jorge Bittar, que teve o seu pior desempenho em eleições municipais.

O partido estadual, dividido e em crise que explodiu, após a eleição de César Maia, engoliu e bancou Luiz Paulo Conde, ex-prefeito feito por ninguem menos que o próprio César Maia, o titular absoluto do partido municipal.

Como na maior parte das cidades brasileiras, o instituto da reeleição prevalece quase como um fato consumado.

Só em duas hipóteses o chefe do Executivo, que permanece à frente da máquina durante a campanha, não se mantem no mando: ou ele foi muito ruim, e vai naufragar em suas próprias crises internas, ou tem adversários muito fortes, fenômeno raro.

A disputa se dá em torno dos discursos de quem fez isso ou aquilo ou de quem poderá fazer.

Os analistas profissionais, que só conseguem comentar no dia seguinte, acabam dizendo, que o povo preferiu valorizar "administradores", como se administrar fosse uma definição isolada, autônoma, ou então teríamos um confronto entre quem administra e quem não administra.

Mas a verdade verdadeira ninguém vai querer esmiuçar, porque mexe em vespeiro, mexe com intocáveis e inatacáveis, principalmente os padrinhos desse voto eletrônico matreiro, que ninguém pode contestar porque caiu por terra a proposta de imprimi-lo, sob o pretexto de que as impressoras sairiam caras.

Numa hora dessas, vale recordar o peruano Mário Vargas Llosa, em seu livro de memórias:

"A política real, não aquela que se lê e se escreve, se pensa e se imagina - a única que conheci - mas a que se vive e pratica no dia-a-dia tem pouco a ver com os ideais, os valores e a imaginação, com as visões teleológicas - a sociedade ideal que gostaríamos de construir - e para falar com crueza, com a generosidade, a solidariedade e o idealismo.

Ela é composta quase exclusivamente de manobras, intrigas, conspirações, pactos, paranóias, traições, muito cálculo, uma dose não negligenciável de cinismo e de todo tipo de tramóia. Porque o que efetivamente mobiliza, excita e mantém em atividade o político profissional, seja ele de centro, de esquerda ou de direita, é o poder, chegar a ele, manter-se nele ou voltar a ocupá-lo o mais depressa possível".

Por que chegamos a tanto? Provavelmente, se perfurarmos a caixa-preta da história, vamos concluir amargamente que isso foi sempre assim, desde os tempos do bumba. Ao longo dos anos, o homem foi dourando a pílula, porque a informação passou a ser mais vasta e a receber tonalidades filosóficas.

O canalha descobriu que poderia ter maior sucesso na proporção de sua felonia. Quanto mais se parecesse ao gosto da multidão, independente de sua verdadeira natureza perversa, mais probabilidade tinha de ganhar o jogo. E assim se criaram as armas da guerra pelo poder.

A um humanista parece muito trágico que o povo seja a grande vítima dessa vigarice, hoje institucionalizada. Mas será que o povo deseja mesmo coisa diferente? Penetre num ambiente miserável e você poderá ter surpresas desagradáveis. Pobre é também o desejo maior dessa gente.

Como a sociedade capitalista também perdeu sua personalidade, já não se fala em conflitos sociais. O partido das migalhas domina a massa sem esperanças maiores, em meio à convivência com galpões fechados, onde um dia havia trabalho e produção.

Os políticos sem ideologia e sem compromissos resolvem-se na formatação de serviços de assistência social que se valem da inexistência de empregos dignos e da precariedade da ação compensatória do Estado. Esta, aliás, acaba sendo utilizada para favorecer os candidatos apadrinhados pelos governos.

Assim como a direita, aqueles que se diziam de esquerda perderam a compostura. Compare as alianças eleitoreiras e você chegará à triste conclusão de que até o samba do crioulo doido, do imortal Stanislaw Ponte Preta, foi superado pelos acontecimentos.

E quando falo isso, não vejo nada e nem ninguém que possa se constituir numa exceção. É isso. As coisas chegaram a um ponto em nossa política que até a máxima de que toda regra tem exceção ficou prejudicada.

E não me pergunte pela saída. Não trato de algo exclusivo do Brasil. Longe disso. A sem-cerimônia é generalizada. Pode ser que um ou outro, como eu, talvez eu, esteja disposto a jogar tudo pela janela em troca de uma utopia cada dia mais distante. Pode ser.

Mas à primeira vista não há sinais de rejeição aos fatos consumados que monitoram nossos passos cambaleantes.

Quem quiser um mundo melhor, em que as pessoas sejam felizes e generosas, que se conforme com o sono da meia-noite. Quando o dia chega e o sol banha as cabeças, coroadas ou não, o ritual da competição atroz faz de cada ser humano, seja político ou simples cidadão, um pequeno monstro, devorador dos outros, numa guerra sem horizonte e sem leis.

Corrijo: sob uma única lei, a do mais astuto.


"A história nada ensina, apenas castiga quem não aprende suas lições"
Vassily Kilinchevsky, pensador russo

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tribunadaimprensa

Comentarios (1)Add Comment
Corrupção
escrito por rafael leal, 2006-10-11 19:07:36
. A corrupção chegou a tanto que poderia estar citando aqui casos e mais casos graves que acontecem no nosso país, precisamos mudar o foco agora, debater mudanças, não apenas dos políticos, mais também nas instituições, nas nossas atitudes do dia a dia, deixarmos de lado o chamado “jeitinho brasileiro” e nos tornarmos pessoas éticas. Vamos investir nas pessoas que podem investir em algumaa forma de prevenção contra essa grande doença, que tem vitimado a sociedade brasileira.

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