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"Não há nada mais ingênuo - ou desonesto - do
que falar em esquerda e direita neste País assolado pela corrupção,
a hipocrisia, o arrivismo, a alienação e a ausência total e
absoluta de escrúpulos, em todos os ambientes, num desprezo
ostensivo por toda e qualquer referência, seja ética, ideológica
ou moral", Pedro Porfírio.
O que se viu no primeiro turno, e se vê no segundo, nas eleições municipais? Uma guerra suja entre os podres poderes - o impávido poder econômico e as máquinas do poder político, nos seus vários níveis,
acrescentando-se a eles o poder da mistificação e do abuso da fé.
Pelo menos no Rio de Janeiro os trampolins eleitorais foram
construídos a partir dos encastelados nos governos - o federal,
o estadual e o municipal, com essas absurdas regras que remetem
para a lixeira parâmetros teoricamente essenciais ao regime em
que "todo o poder emana do povo e em seu nome será
exercido".
No caso, o partido federal deu cobertura ao candidato do PT,
Jorge Bittar, que teve o seu pior desempenho em eleições
municipais.
O partido estadual, dividido e em crise que explodiu, após a
eleição de César Maia, engoliu e bancou Luiz Paulo Conde,
ex-prefeito feito por ninguem menos que o próprio César Maia, o
titular absoluto do partido municipal.
Como na maior parte das cidades brasileiras, o instituto da
reeleição prevalece quase como um fato consumado.
Só em duas hipóteses o chefe do Executivo, que permanece à
frente da máquina durante a campanha, não se mantem no mando:
ou ele foi muito ruim, e vai naufragar em suas próprias crises
internas, ou tem adversários muito fortes, fenômeno raro.
A disputa se dá em torno dos discursos de quem fez isso ou
aquilo ou de quem poderá fazer.
Os analistas profissionais, que só conseguem comentar no dia
seguinte, acabam dizendo, que o povo preferiu valorizar
"administradores", como se administrar fosse uma definição
isolada, autônoma, ou então teríamos um confronto entre quem
administra e quem não administra.
Mas a verdade verdadeira ninguém vai querer esmiuçar, porque
mexe em vespeiro, mexe com intocáveis e inatacáveis,
principalmente os padrinhos desse voto eletrônico matreiro, que
ninguém pode contestar porque caiu por terra a proposta de
imprimi-lo, sob o pretexto de que as impressoras sairiam caras.
Numa hora dessas, vale recordar o peruano Mário Vargas Llosa, em
seu livro de memórias:
"A política real, não aquela que se lê e se
escreve, se pensa e se imagina - a única que conheci - mas a
que se vive e pratica no dia-a-dia tem pouco a ver com os
ideais, os valores e a imaginação, com as visões teleológicas
- a sociedade ideal que gostaríamos de construir - e para
falar com crueza, com a generosidade, a solidariedade e o
idealismo.
Ela é composta quase exclusivamente de manobras, intrigas,
conspirações, pactos, paranóias, traições, muito cálculo,
uma dose não negligenciável de cinismo e de todo tipo de
tramóia. Porque o que efetivamente mobiliza, excita e mantém
em atividade o político profissional, seja ele de centro, de
esquerda ou de direita, é o poder, chegar a ele, manter-se
nele ou voltar a ocupá-lo o mais depressa possível".
Por que chegamos a tanto? Provavelmente, se perfurarmos a
caixa-preta da história, vamos concluir amargamente que isso foi
sempre assim, desde os tempos do bumba. Ao longo dos anos, o
homem foi dourando a pílula, porque a informação passou a ser
mais vasta e a receber tonalidades filosóficas.
O canalha descobriu que poderia ter maior sucesso na proporção
de sua felonia. Quanto mais se parecesse ao gosto da multidão,
independente de sua verdadeira natureza perversa, mais
probabilidade tinha de ganhar o jogo. E assim se criaram as armas
da guerra pelo poder.
A um humanista parece muito trágico que o povo seja a grande vítima
dessa vigarice, hoje institucionalizada. Mas será que o povo
deseja mesmo coisa diferente? Penetre num ambiente miserável e
você poderá ter surpresas desagradáveis. Pobre é também o
desejo maior dessa gente.
Como a sociedade capitalista também perdeu sua personalidade, já
não se fala em conflitos sociais. O partido das migalhas domina
a massa sem esperanças maiores, em meio à convivência com galpões
fechados, onde um dia havia trabalho e produção.
Os políticos sem ideologia e sem compromissos resolvem-se na
formatação de serviços de assistência social que se valem da
inexistência de empregos dignos e da precariedade da ação
compensatória do Estado. Esta, aliás, acaba sendo utilizada
para favorecer os candidatos apadrinhados pelos governos.
Assim como a direita, aqueles que se diziam de esquerda perderam
a compostura. Compare as alianças eleitoreiras e você chegará
à triste conclusão de que até o samba do crioulo doido, do
imortal Stanislaw Ponte Preta, foi superado pelos acontecimentos.
E quando falo isso, não vejo nada e nem ninguém que possa se
constituir numa exceção. É isso. As coisas chegaram a um ponto
em nossa política que até a máxima de que toda regra tem exceção
ficou prejudicada.
E não me pergunte pela saída. Não trato de algo exclusivo do
Brasil. Longe disso. A sem-cerimônia é generalizada. Pode ser
que um ou outro, como eu, talvez eu, esteja disposto a jogar tudo
pela janela em troca de uma utopia cada dia mais distante. Pode
ser.
Mas à primeira vista não há sinais de rejeição aos fatos
consumados que monitoram nossos passos cambaleantes.
Quem quiser um mundo melhor, em que as pessoas sejam felizes e
generosas, que se conforme com o sono da meia-noite. Quando o dia
chega e o sol banha as cabeças, coroadas ou não, o ritual da
competição atroz faz de cada ser humano, seja político ou
simples cidadão, um pequeno monstro, devorador dos outros, numa
guerra sem horizonte e sem leis.
Corrijo: sob uma única lei, a do mais astuto.
"A história nada ensina, apenas castiga quem não
aprende suas lições"
Vassily Kilinchevsky, pensador russo
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