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"Nas eleições municipais de São Paulo e Rio de
Janeiro, principalmente,
ocorreu um fenômeno atípico", Edouard.
Renomados institutos de pesquisa, como Ibope
e DataFolha, apresentaram considerável divergência
em relação aos resultados das urnas pelos candidatos: José
Serra e César Maia, cada um em seus respectivos pleitos, nas
duas maiores cidades do Brasil.
Os candidatos concorrentes não apresentaram tais variações,
coincidindo com as previsões dos institutos.
Por quê (?)
Em que se basearam as pesquisas dos institutos no dia anterior
às eleições de primeiro turno em São Paulo, que mostravam
empate técnico entre Serra e Marta, e no Rio de Janeiro, onde o
candidato Maia enfrentava forte queda nos últimos dias, que
antecederam a votação, com 41% das intenções de voto no dia
2/10/2004 (?) Como se deu tal inversão em 24 horas (?)
César Maia foi eleito com pouco mais de 50% dos votos válidos
e José Serra saltou dos 35% - 37% das pesquisas, para 43,5% das
urnas (?)
Os institutos erraram por não terem levado em conta o fenômeno
da internet nos grandes centros urbanos.
O poder e a capacidade de fluir a informação faz hoje da
internet um veículo de extrema relevância, principalmente
quando se trata das classes média e média alta da população.
Poderíamos perguntar, mas que fenômeno foi esse na internet
que poderia ter causado tal variação (?)
Na verdade, foi a internet combinada a outros fatores.
É sabido amplamente que boa parte da população jovem,
principalmente das classes citadas, é alienada.
É uma boa leva de jovens que vem aí com preparo inadequado
do ponto de vista de coletividade e cidadania.
Combinado a isso, temos o segundo turno das eleições
municipais ocorrerá em 31/10/2004, também domingo, mas no meio
de um feriado prolongado (Finados, terça-feira, 2/11/2004).
Pelo menos duas semanas antes das eleições correram pela
internet mensagens convocando o eleitor a votar em São Paulo no
candidato tucano, José Serra, e no Rio de Janeiro, em César
Maia, "para não perdermos o privilégio de uma ponte de
quatro dias de descanso, afinal todos nós merecemos...".
O imponderável, o inexplicável
Ora, realmente, para quem curte não fazer muita coisa, associado
ao consumo de cervejas, quitutes, sexo, drogas e dar uma
"vagabundada", nada mais que perfeito, motivo justo,
termos mais um fim de semana prolongado.
Vejamos, a questão:
Quem está na frente das pesquisas (?) -É nele que votamos, e
pronto.
Afinal, político é político, qual a diferença entre eles (?)
-Todos são safados e sem-vergonha. Um pelo outro, valem mais os
quatro dias de descanso.
Ou seja, avaliação crítica, ver os programas de governo, o
histórico de cada candidato, seus apoios, entrevistas, debates
etc., tudo perda de tempo, conversa pra boi dormir.
Propaganda eleitoral, poluição visual nas cidades,
carreatas, comícios, showmícios, boca de urna etc., pura
bobagem, inutilidades, nulidades.
E não foi diferente em Belo Horizonte em outras capitais, em
menor intensidade, pois muitos buscaram seu próprio gozo acima
de pensarem, refletirem sobre suas cidades, ou em política, ou
na cidadania, ou no coletivo.
E como não poderia deixar de acontecer, aí aparecem os
cientistas políticos de plantão para filosofar sobre o imponderável,
o inexplicável, acompanhados de jornalistas e âncoras
renomados.
Pelas suas análises podemos, quem sabe, chegar a entender
esses fenômenos surpreendentes, variações que nem os renomados
institutos de pesquisa puderam. Daqui a pouco os institutos vão
fazer suas pesquisas com variações de +/- 10% para não
errarem.
Muitos cientistas políticos, jornalistas, âncoras e donos de
institutos de pesquisa têm em seus próprios lares jovens com
características comportamentais que se enquadram nos
anteriormente descritos.
Algumas sugestões
A diferença de aproximadamente 450 mil votos a mais entre Serra
e Marta, e a subida inesperada de César Maia, com mais de 250
mil votos, demonstra claramente este fenômeno, sem nenhuma
previsibilidade.
Liberdade e democracia são coisas totalmente distintas de
libertagem.
A combinação entre a divulgação antecipada e contínua de
pesquisas de intenção de voto, a internet, massas de população
jovem sem a devida preparação social e cidadã e consciência
política para o correto engajamento em eleições e a
possibilidade de um feriado combinado com fim de semana
prolongado, podem produzir cenários inusitados.
Os diplomas emoldurados nas paredes podem ir para o lixo.
O que reforça essa tese são os resultados em várias outras
regiões do Brasil, onde claramente havia muito mais equilíbrio
entre muitos candidatos, ocorrendo uma pulverização mais ampla
entre os votos. E esses locais são justamente aqueles em que a
influência da internet é menor.
Basta ver a proporção de resultados em primeiro turno e a
polarização entre dois candidatos nas capitais e municípios
com mais de 200 mil habitantes, e o mesmo nas demais cidades.
Portanto:
- As autoridades responsáveis, TRE e o governo federal,
devem sempre buscar realizar eleições em fins de semana
sem pontes e em épocas plenas de grade escolar corrente.
- Proibir a divulgação de pesquisas de intenção de voto
em jornais, revistas, canais de TV, rádios e internet.
As pesquisas devem ser de uso restrito dos partidos políticos
e seus candidatos.
- Para o público em geral, as pesquisas devem ser
disponibilizadas pelos escritórios regionais do TRE, com
apresentação de carteira de identidade, comprovante de
residência, preenchimento de formulário padrão/cadastral,
explicitando por escrito para qual uso, ou fim está
sendo solicitado.
- Qualquer divulgação de pesquisa pelos TREs não deve
conter o nome do instituto responsável.
Nova onda
É lamentável, chega a ser ridículo, imaginar que um país, um
povo, uma nação como Brasil, que busca depois de 504 anos se
firmar como potência democrática e emergente, lutando para
conquistar seu merecido espaço no cenário internacional, tenha
de enfrentar um ultraje dessa monta, justamente em seu sufrágio
universal doméstico.
Realmente, com esse fenômeno, vem à tona algo muito sério e
preocupante.
Existem vários "Brasis" dentro do próprio
Brasil. A família demonstra claramente seu enfraquecimento como
principal instrumento de formação de cidadãos nos grandes
centros urbanos. Nos grandes centros urbanos, muitos pais e cidadãos
devem reavaliar seus valores e princípios.
- O que realmente deve importar nas nossas vidas
como legado para as próximas gerações (?)
- Onde, na atual conjuntura de dita
"modernidade" e avanço frenético do nível de
informação pasteurizada, cabe frisarmos cidadania,
civismo, responsabilidade social, senso político e critérios
coletivos nas nossas escolhas (?)
- Que Brasil temos, que Brasil queremos (?)
Aqueles que sempre contaram com instrumentos de controle
das massas, estes sim, devem estar planejando novas
estratégias de contingenciamento para enfrentar a nova
onda. E aí sua instrumentalização passa de maneira
inequívoca pela grande mídia.
(*) Edouard Mekhalian, é engenheiro, em São Paulo/SP
Observatório da Imprensa
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