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Escrito por Cristovam Buarque   
Sunday, 19 September 2004

Um dos jornais do dia 1º trouxe na manchete o crescimento de 4,2% do Brasil no primeiro semestre. Abaixo, a foto de um homem depositando flores para os mendigos mortos na rua. Não sabemos se foi coincidência as duas informações juntas, mas elas retratam a realidade de um país que cresce mas não resolve, e às vezes agrava, seus problemas sociais.

Devo a Hélio Jaguaribe a idéia de que o Brasil tem um “perfil social inviável”. Se continuarmos crescendo sem mudar a realidade social, a nação brasileira se desintegrará. Essa mudança é cada vez mais dificultada pelo equívoco da concentração do projeto nacional no pilar econômico. Criamos, ao longo de décadas, a idéia de que o crescimento econômico é o caminho para construir uma nação sólida.

A história já mostrou que a economia é uma necessidade, mas que longe de resolver os problemas brasileiros, ela pode agravá-los em alguns casos. A falta de crescimento traz problemas, mas o crescimento não resolve as questões sociais. Até os anos 80 imaginava-se que, além do crescimento, era necessária uma revolução socialista para submeter a economia aos interesses sociais. Essa idéia perdeu força, mas não foi substituída.

Vivemos décadas sem idéias marcantes de um novo rumo.

O Brasil não tem, por exemplo, um Projeto de Inclusão. A pobreza é tratada como falta de crescimento econömico, embora a experiência mostre que ele não é capaz de superar a pobreza, não inclui os excluídos, e concentra os benefícios na parcela de trabalhadores já incorporados à modernidade.

Um Projeto de Inclusão significaria construir uma sociedade onde todos tivessem acesso aos bens e serviços essenciais. O crescimento econômico não gerará aumento substancial de emprego, e o eventual aumento não empregará os analfabetos, deseducados, moradores de cidades pobres. Definiria metas para assegurar a todos acesso à saúde com qualidade, educação universal e competente, transporte público eficiente, moradia com água e esgoto.

Seria um projeto de políticas sociais, não de indução ao crescimento. Políticas sociais que garantissem acesso, e não renda.

A década perdida para as idéias não definiu um Projeto De Distribuição De Renda. Imagina-se erroneamente que quando aumenta, a riqueza se espalha. A distribuição da renda só ocorre quando há um projeto de qualificação profissional – principal instrumento para elevar salários – e uma política para elevar mais rapidamente a renda das camadas mais baixas.

Um projeto que, perseguido nos próximos 10 ou 15 anos, mudaria nossa vergonhosa situação de campeões na concentração da renda.

Também não temos um Projeto de Redução das Desigualdades Regionais. Por décadas, acreditamos que a repetição do crescimento industrial paulista nas regiões Norte e Nordeste reduziria essa desigualdade. O resultado foi um fracasso. Um projeto de redução das desigualdades regionais implica primeiro uma política social intensa para as regiões pobres do País, e segundo a adoção de medidas para orientar a implantação de projetos econômicos nessas regiões, mesmo que elas não apresentem a maior eficiência do ponto de vista puramente econômico.

Não temos um Projeto de Redução da Violência, nem do Fim da Corrupção, ou para Salvar Nossas Cidades, tampouco para Proteger o Meio Ambiente. O mundo das idéias atravessa uma ou mais décadas perdidas. Perdemos a capacidade de sonhar projetos alternativos, acreditando que basta a economia crescer sem inflação com democracia política.

Nosso perfil social é inviável e as idéias novas são inexistentes. Falta-nos, acima de tudo, um Projeto de Libertação do Pensamento Único que continua dominando o mundo, mesmo quando mudam os governos. E a culpa não é dos governos, é dos partidos políticos que não gostam de debater idéias, das universidades só gostam de debater temas antigos, e dos intelectuais que caíram na década perdida e acham que foi a economia que deixou de crescer.

Cristovam Buarque é Ph.D. em Economia. Foi governador do Distrito Federal (1995-98), em 2002 elegeu-se senador pelo PT com a maior votação dada a um político no Distrito Federal. Foi Ministro da Educação (2003-04). É membro do Instituto de Educação da Unesco. Você pode visitar sua homepage - http://www.cristovam.com.br e escrever-lhe em Esse endereço de e-mail está sob proteção contra Spam (spam bots).Por conseguinte, você deve ativar o recurso Javascript para poder visualizar isso

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